Liga de Clubes faz sucesso no Brasil?

Muita gente no Brasil defende que clubes de futebol se juntem numa liga, organizem sua própria competição, a trabalhem comercialmente, e deixem para CBF apenas aspectos técnicos como definição da arbitragem.

Isso é utopia? Não. Na verdade, já acontece há quase uma década. Se chama Copa do Nordeste.

Lá no início desse século, quando a CBF resolveu transformar o campeonato brasileiro em uma competição de pontos corridos em dois turnos o calendário nacional precisou ser ajustado. Por isso competições regionais como Torneio Rio-São Paulo, Sul-Minas e a Copa do Nordeste foram extintas em benefício da manutenção de calendário dos estaduais.

Só que os clubes do Nordeste, que já haviam fundado sua liga, não ficaram satisfeitos com essa história. Foram à Justiça contra a CBF e iam ganhar uma indenização milionária. Para fugir desse prejuízo, a CBF chamou a Liga para conversar e um acordo foi feito: o torneio poderia voltar a ser disputado com a chancela da Confederação pelo prazo de 10 anos.

A Liga e seus clubes precisaram se ajustar com suas federações estaduais. Ajuste de data aqui, ajuste acolá, participação financeira das federações nas receitas da competição (muito mais rentáveis que seus estaduais tanto comercialmente quanto em público no estádio) e todos os interesses foram assentados, culminando na competição mais interessante do “primeiro semestre” do Brasil.

Em termos financeiros, embora ainda esteja abaixo do campeonato paulista, a Copa do Nordeste está muito acima de qualquer estadual da região. Em termos técnicos, a competição possui 4 clubes de série A e 5 de série B. Em tese, não há campeonato que possa se comparar.

Para os clubes, além do evidente alívio financeiro, há a questão da autoestima do seu torcedor e a demonstração da capacidade que o futebol brasileiro tem de promover um evento de qualidade. A Copa do Nordeste tem “Tour da Taça” por todos os estados, teve redes sociais ativas (muito antes de qualquer competição relevante no país) e sabe promover uma final, como já se viu em anos passados e se demonstrou no último sábado no Castelão em Fortaleza, infelizmente, sem torcida por conta da pandemia de Covid-19.

Toda essa história serve para refletirmos sobre a capacidade de organização do futebol brasileiro. Tanto da parte logística e comercial, quanto da parte política. Afinal, se temos uma Copa do Nordeste que prospera e vai para o seu 10º ano (fica a expectativa para a sua renovação pela CBF, pois tem sido um enorme sucesso – inclusive de audiência), tivemos um fiasco tremendo chamado Primeira Liga que não conseguiu decolar.

Vivemos num tempo em que se tornou clichê dizer que o futebol é um produto da indústria do entretenimento e de vermos constantes cobranças por profissionalização. Vislumbra-se na Liga do Nordeste – que já existe há tanto tempo – um caminho ignorado.

O mapa da mina está ali, falta o que para os clubes brasileiros perceberem?

Notas e Referências:
Foto da Capa – Twitter Bahia