A QUALIDADE DO GRAMADO NA FLUÊNCIA DO JOGO

ㅤㅤㅤUm jogo de futebol realizado em um gramado “padrão Copa do Mundo” é o sonho de consumo de todos os treinadores e jogadores de futebol, mas nem sempre essa expectativa é uma realidade aqui no Brasil.

ㅤㅤㅤA expectativa de hoje em dia é ver os jogos sendo jogados em gramados com cortes mais baixos, aliados à boa irrigação do campo antes do início e no intervalo da partida, tornando o jogo mais rápido e propiciando aos espectadores boas partidas de futebol como um verdadeiro espetáculo.

ㅤㅤㅤEu pensei em abordar esse tema após assistir alguns jogos dos campeonatos estaduais e da Copa do Brasil, além de conversar com alguns amigos (treinadores de futebol), porém não tenho a pretensão nessa coluna de discutir acerca dos regulamentos das competições das Federações e nem da CBF. Eu pretendo apenas retratar que a nossa realidade aqui no Brasil ainda é outra, uma vez que ainda vemos muitas competições sendo disputadas em gramados que não oferecem as mínimas condições de tornar o espetáculo agradável.

ㅤㅤㅤA bola não rola da mesma forma em todos os tipos de gramados, e se levarmos em consideração os estádios do Brasil, nem sempre o jogo é o mesmo em função da qualidade deles. Diversos atletas e treinadores nas entrevistas após os jogos demonstraram insatisfação com as condições dos gramados das competições, pois impediam a prática do bom futebol. É claro que não são todos, mas também estamos longe de termos um padrão.

ㅤㅤㅤA qualidade do jogo não se deve exclusivamente à condição do gramado, mas também a outros tantos aspectos (técnicos, táticos, físicos e estruturais) que podem interferir diretamente no resultado. Campos que possuem gramados de qualidades inferiores podem nivelar o jogo tecnicamente de maneira que favoreça a equipe mandante, uma vez que os seus jogadores já possuem uma melhor adaptação ao campo. Essas diferenças geram, sem dúvida alguma, uma certa vantagem aos donos da casa.

ㅤㅤㅤTodo treinador que tem a oportunidade e o desafio de participar de competições nacionais no Brasil sabe disso e, necessariamente precisa pensar e programar o seu trabalho em função dessas dificuldades. Bruno Lazaroni entende que “se a sua ideia de jogo é ter uma maior posse de bola, a interferência de um gramado de má qualidade será grande e a adaptação quase sempre será necessária”.

ㅤㅤㅤO que poderá ser feito para que essa dificuldade estrutural não comprometa o trabalho é mais um desafio para os treinadores, e em se tratando de competições nacionais ainda podemos nos deparar com outros inconvenientes, pois ainda existem alguns campos que não obedecem as medidas exigidas (ou são maiores ou menores que as permitidas). Recentemente, em um jogo do campeonato estadual do Rio de Janeiro, o treinador Sandro Sargentim precisou buscar soluções rápidas para essa situação, pois os seus jogadores “perderam as referências nas situações de bolas paradas”. Lazaroni concorda que as bolas paradas são preponderantes “ainda mais em campos ruins que podem nivelar o jogo técnico”.

ㅤㅤㅤAlguns ajustes são feitos nos treinamentos visando minimizar tais problemas, mas nem sempre é possível. Sargentim afirma que: “essas diferenças de medidas podem desconfigurar as linhas do campo e interferirem diretamente na preparação para o jogo e, nesse caso, os atletas precisam de rápida adaptação durante a realização do jogo”.

ㅤㅤㅤAdaptar-se é a solução e Bruno Lazaroni confirma isso: “pode ser que tenha que alterar o planejamento, talvez criando alternativas nas construções ofensivas, por exemplo. Utilizar-se de uma construção direta, pode ser uma dessas alternativas”.

ㅤㅤㅤAdaptação pode ser também sinônimo de alteração. O técnico Zé Ricardo se recorda de “já ter feito alteração de atletas para determinadas partidas em função de campos com a grama mais pesada, onde aconteciam confrontos físicos maiores, que favoreciam atletas fisicamente privilegiados. Nesses campos, era necessário uma maior concentração nas jogadas mais curtas e na saída de bola. Não se tratava de deixar de fazê-las, mas estar concentrado para não correr tantos riscos em função da condição do gramado”.

ㅤㅤㅤPensando mais uma vez em adaptação, diversas equipes do Brasil já possuem em seus CT´s campos com diferentes características para atenderem a essas necessidades específicas que cada partida ou competição oferece. Campos com gramados diversos (grama rasteira, grama sintética e grama mais grossa), onde é possível treinar (quando o calendário permite) e gerar o mínimo de adaptação naquilo que irá enfrentar.

ㅤㅤㅤEssa estrutura não é uma realidade para todas as equipes, e há aquelas que treinam no mesmo campo que mandam os seus jogos. “Em gramados ruins é até possível fazer o seu jogo fluir, mas é claro que ele não fica totalmente da maneira que se projeta. O atleta pode ter a necessidade de dar um toque a mais na bola, pois ela fica mais “viva”  e ficando difícil passá-la de primeira, o que interfere na velocidade do jogo”, observou Zé Ricardo.

ㅤㅤㅤO choque de realidade que muitas vezes sentimos ao nos depararmos com campos de jogo que propiciam um espetáculo mais dinâmico revela o impacto dessa condição para o bom futebol, e se compararmos com os principais campeonatos do mundo percebemos um impacto ainda maior.

ㅤㅤㅤSe levarmos em consideração a integridade física dos atletas, muitas providências deverão ser tomadas. Se não compromete a curto prazo, os efeitos poderão vir a longo prazo após o desgaste de vários jogos. Por fim, Zé Ricardo trouxe à tona uma reflexão interessante sobre a qualidade dos gramados no processo de construção do jogador brasileiro: “aquilo que ajudou a formar a essência do jogador brasileiro, hoje em dia faz com que seja um aspecto que pode estar prejudicando-o no seu desenvolvimento para um futebol mais atual”.