A nostalgia dos anos 90 e o Futebol Moderno

O antigo placar eletrônico, a saudosa geral, a charge no jornal impresso na segunda-feira de manhã… quem pôde vivenciar o futebol dos anos 90 com certeza se recorda dessa época ímpar do futebol brasileiro e que deixou muitas saudades.

Os últimos momentos do “velho futebol” antes da grande mudança para o futebol moderno no país. Passar horas e horas na fila para comprar os ingressos, sintonizar rádio AM no caminho para o jogo, “ir de arquibancada para sentir mais emoção”, bandeirões, sinalizadores, papéis picados, camisa para dentro, chuteiras pretas, “o distintivo na camisa do uniforme, está rolando agora uma partida de futebol”. Os amantes do futebol que viveram essa época jamais se esquecerão dos emocionantes Brasileirões de mata-mata e das super séries nos anos de 1998 e 1999, das batalhas épicas entre Palmeiras x Corinthians, da milionária Copa Mercosul, dos estádios ainda batendo a casa de 100.000 mil ou mais pessoas, do “melhor ataque do mundo” com Romário, Sávio e Edmundo. O banco de reservas abarrotado pedindo desesperadamente o fim do jogo para invadir e soltar o grito de “é campeão”.

O Brasil contou com belíssimas esquadras nos anos 90, foi a década em que o país mais venceu Copas Libertadores (6 taças) e as equipas “batiam de frente” ante qualquer time no mundo. Não havia essa disparidade para Europa. Em paralelo a tudo isso, nossa Seleção era um sucesso total e absoluto, com uma legião de craques e resultados expressivos, o Brasil dominava o Mundo com o futebol arte.

A vontade de reviver o passado trás o sentimento nostálgico das situações vividas. Cada um defende a sua época de alguma forma relembrando tudo aquilo que lhe dá saudades. Eu sou um fã confesso do futebol dos anos 90 e suas peculiaridades, mas o mundo e, inevitavelmente o futebol mudaram e evoluíram, a gigantesca onda de tecnologia e inovação e a tendência de globalização fizeram com que diversos elementos inerentes ao futebol fossem modificados.

Os primeiros passos na modernização do futebol brasileiro aconteceram no Mundial de Clubes, em 2000, organizado pela FIFA, que requereu mudanças estruturais nas sedes Maracanã e Morumbi, como o fim da arquibancada com a instalação de assentos em todo o anel superior do antigo “Maraca”. O ano de 2007 foi crucial para a modernização do futebol nacional, o “Engenhão” (hoje estádio do Botafogo) foi inaugurado e em outubro daquele mesmo ano a FIFA anunciava o país como sede da Copa das Confederações de 2013 e da Copa do Mundo de 2014.

O conhecido bordão “padrão FIFA” gerou e ainda gera inacabáveis discussões sobre a importância das novas Arenas e a situação política social do país, mas, abordando exclusivamente a parte esportiva, e com o auxílio das Federações e Confederações, a modalidade evoluiu no país, desde a padronização nas dimensões dos campos – todos os estádios de séries A e B desde 2017 são de 105m x 68m – até as entrevistas na “zona mista” e o fim dos repórteres em todos os locais, inclusive nos vestiários.

Hoje em dia, o atendimento ao torcedor é muito mais assertivo, de acordo com as necessidades dos clientes e parceiros comerciais, agrada desde o fã fanático que gosta de ir no “meio da galera” – cito as arenas dos Grêmio, Corinthians e Inter, que tem locais sem cadeiras especialmente para esse tipo de torcedor  – até o pai que quer levar a família para se divertir no domingo de manhã. A proibição de tirar a camisa no momento do gol e a obrigatoriedade da camisa para fora do calção, por exemplo, ajudam na exposição do patrocinador.

Tudo isso pela qualidade do espetáculo, pois o futebol é uma indústria de entretenimento, é um negócio que gera milhões de empregos. Cito a frase do Omar Berrada (CFO do City Group): “Não estou dizendo que somos a Disney, mas se você pensar bem, não somos tão diferentes assim, temos personagens – que são jogadores – com os quais nossos torcedores se identificam; nós fazemos um show a cada três ou quatro dias, e então levamos esse show pelo mundo no verão. Nesse sentido, fazemos parte da indústria do entretenimento”. 

Recomendo a leitura do livro “A Liga”, que retrata o caminho percorrido pela Premier League para chegar ao topo do mundo.

O futebol nunca foi só um jogo, porém temos que entender também que é o jogo que gera o entretenimento, e não o entretenimento que gera o jogo. Portanto padronizar os estádios, as dimensões, os bancos de reservas, os vestiários e todos os processos é de suma importância para que tenhamos unidade e maior justiça à modalidade – ir jogar em um estádio com a grama ruim, ou que os adversários pratiquem o anti-jogo molhando somente metade do campo, cortando a energia do vestiário do visitante e, até mesmo, diminuindo as medidas oficiais do campo de jogo e o tamanho do gol.

É nostálgico relembrar todas as emoções vividas no “antigo futebol”, porém a evolução da indústria esportiva é inevitável. As ligas mais bem sucedidas do mundo foram por esse caminho… os anos 90 não voltarão, tenho eles guardados em um lugar especial na memória. O Brasil evoluiu e vem evoluindo, a Copa do Mundo de 2014 ajudou muito nessa modernização, porém não podemos parar e temos que cada vez mais melhorar o nosso melhor produto, que é o Futebol Brasileiro… que esse jogo que é amado por bilhões de pessoas continue nos proporcionando momentos eternos.

Até mais… Um abraço!