Talentos (não mais) desperdiçados

A preparação de jovens para o mundo do futebol

Tales de Mileto, considerado por Aristóteles o pai da filosofia ocidental, além de outras contribuições relevantes ao conhecimento que se tinha por volta do ano 500 a.C., foi objetivo e convicto quando questionado:

  • O que é difícil? “Conhecer a si próprio”.
  • O que é fácil? “Dar conselhos”.

Frutos de uma sabedoria ímpar, essas respostas não podem se limitar a um assunto específico, mas são aplicáveis a qualquer tema e em qualquer época.

Pensemos na formação de atletas profissionais de futebol, que são objeto de reflexão das colunas que estão sendo escritas nesta plataforma.

O que temos estimulado nossos jovens a fazer quando estão se capacitando para a realização do sonho de jogar futebol em alto nível? 

As respostas de Tales se comprovam ao observarmos as práticas habituais do processo de formação no Brasil. Talvez por crer na maior facilidade e na mais provável assertividade ao criar estereótipos, os responsáveis pela identificação de talentos e aprendizagem dos fundamentos e a necessidade de seu constante aprimoramento, se preocupam mais em definir padrões de sucesso. Por que não investem tempo e energia para estudar as características de cada um e, ainda mais importante, incentivar o autoconhecimento dos atletas?

Aconselhar dentro de diretrizes preestabelecidas pode até ser mais simples, mas seria tão eficiente quanto pavimentar o caminho para que a partir do conhecimento de si mesmos os jovens sejam capazes de se desenvolver consideravelmente mais?

Acredito que ao nos basearmos em padrões de excelência, automaticamente não permitimos que o potencial seja explorado ao máximo e muitos garotos, ao mecanizarem sua forma de jogar, perdem a capacidade de aperfeiçoar suas habilidades e fazer uso do que lhes poderia conferir destaque. Os benefícios serão notórios dentro de campo e no relacionamento com si mesmos, como consequência da leveza de fazer o que amam, livres da preocupação exacerbada com números e parâmetros, ao mesmo tempo em que têm autonomia para tomarem decisões que melhorarão naturalmente sua satisfação com o próprio rendimento.

Pelo fim do surgimento de jogadores limitados e burocráticos, todos têm que assumir a responsabilidade de repensar a formação. Não adiantar apontar culpados ou se ater ao saudosismo dos craques de outrora, que merecem respeito, mas hoje são apenas parte da história do futebol nacional. É hora de buscarmos o equilíbrio entre os conceitos do futebol moderno e uso da ciência e da tecnologia para aumento de performance, com a valorização do autoconhecimento e da devida exploração do dom e das individualidades. 

Os talentos não pararam de surgir no Brasil, eles só precisam ter espaço para aparecer. 

Não é o fim do país do futebol. Há esperança para as próximas gerações!!!