Racismo estrutural e sua manifestação no futebol

Os inúmeros relatos de racismo no âmbito do esporte

Com muita honra e orgulho faço deste artigo o início da minha trajetória como colunista no portal FutClass – Academia do Futebol, onde pretendo aqui compartilhar minhas ideias e aprofundar o debate sobre esse esporte que desde a minha infância trago comigo e o reservo profunda paixão. Não posso deixar de cumprimentar os fundadores e demais parceiros do projeto FutClass assim como parabenizá-los pela iniciativa da qual comungo em aprofundar o debate acerca do mundo esportivo. Ao nosso leitor, informo que buscarei me atentar as discussões políticas e jusdesportivas do futebol.

Feitas essas considerações, como pontapé inicial da coluna, o tema do artigo de hoje será o racismo estrutural e sua manifestação no esporte, e que pede uma ponderação da minha parte. Tudo que eu venha apontar e trazer neste texto parte da ótica, do lugar e da reflexão de um homem branco, consciente de todos os privilégios que essa condição carrega.

O meio esportivo não passa despercebido quanto as práticas da sociedade, e a concepção estrutural que transcende a discriminação racial. Os inúmeros relatos de racismo no âmbito do esporte, sobretudo no futebol, são temas de discussão e debate junto ao Observatório da Discriminação Racial no Futebol, presidido por Marcelo Carvalho, e que, anualmente, realiza um relatório de injuria racial a partir do monitoramento desses casos divulgados pela imprensa1.

Não obstante, hoje em dia grandes nomes do esporte vêm se manifestando no combate ao racismo, em conjunto com algumas poucas organizações esportivas. Cito aqui nomes influentes em suas modalidades que levam a bandeira do combate ao racismo como Lebron James, Naomi Osaka, Marcus Rashford, Lewis Hamilton, e, aqui no Brasil, cito o ex-árbitro de futebol e comentarista Marcio Chagas2 e Neymar, este último por meio do recente relato que o mesmo se disse vítima de ofensas racistas proferidas pelo zagueiro espanhol Álvaro Gonzalez, no último domingo (14) em partida contra o Olympique de Marseille válida pelo campeonato francês3.

Me permito usar da análise feita pelo professor Doutor Silvio Almeida, que em sua obra Racismo Estrutural4, além de outras tantas ricas reflexões, debruçou-se sobre as três concepções do racismo, em seu caráter individualista, institucional e estrutural.

No caráter individualista, o racismo é interpretado como uma expressão de caráter individual, em que o fenômeno age de forma isolada por alguns, e não de forma coletiva, e advém de um comportamento imoral e que é analisado puramente como uma forma de preconceito, e que o enfrentamento desse problema é penalizar o agressor de forma isolada, ou a pequenos grupos, tratado como uma anormalidade, uma situação acidental. Por meio dessa análise, por exemplo, se formos nos apegar aos acontecimentos recentes, Álvaro Gonzalez teria agido de forma isolada e descompromissada com uma estrutura racial que permeia o seu modo de pensar e agir, como uma espécie de ação acidental da parte do zagueiro, a forma de combate através dessa corrente seria a sua punição feita de forma isolada, negócio resolvido. O uso da palavra “preconceito” ao invés de racismo reforça essa visão individualista do fenômeno.

A concepção institucional, por sua vez, uma corrente avançada nos estudos sociais, se notabilizou a enxergar que o comportamento racista não se resume apenas em seu caráter individual, mas sim um funcionamento das instituições, que operam para manter a hegemonia de um determinado grupo social no poder, o domínio depende de regramentos que dificultem a ascensão de homens e mulheres negras, e, fazendo com que padrões estéticos e práticas de um determinado grupo tornem-se o horizonte civilizatório. O domínio de brancos nas instituições e organizações econômicas, sobretudo as que norteiam o esporte, na FIFA, nos Tribunais de Justiça Desportiva, no comando técnico dos clubes mais abastados do futebol nacional e internacional, contribui de forma direta ou indiretamente para a não ascensão de negros e mulheres, além da falta de discussão acerca da desigualdade racial, das ofensas racistas dentro do esporte e negativa de uso do esporte como meio de protestos e de reinvindicações de grupos historicamente marginalizados.

A consequência dessa falta de representatividade de minorias raciais é o inevitável mantimento da lógica discriminatória dessas instituições, ao também não combater atos de racismo de forma consistente. Aqui menciono seguidos julgamentos de Tribunais de Justiça Desportiva e Superior Tribunal de Justiça Desportiva, onde as penalidades, quando não julgadas de forma branda, acabam em sua maioria sendo de praxe atenuadas em recursos pelo Tribunais Plenos a nível estadual e ao Tribunal Pleno do STJD5, a nível nacional, bem como a Corte Arbitral do Esporte, a nível internacional. Outro exemplo é a represália da Federação do Automobilismo (FIA) ao não permitir e a vias de punir as recentes manifestações contra o racismo do maior piloto da atualidade Lewis Hamilton. Em suma, tanto as instituições públicas quanto as que detém a organização política e econômica da sociedade são um veículo fundamental para a propagação do racismo.

Considerado o maior avanço no que se refere ao estudo das relações sociais, a concepção estrutural do racismo toma lugar na mais profunda e ampla reflexão sobre esse fenômeno social. Por meio da análise estrutural entende-se que as instituições só agem da forma que agem porque estão condicionadas a uma estrutura social que as precede, anterior e inerente a elas. Assim, quando as instituições expressam racismo, elas expressam a estrutura social. O racismo, portanto, não é criado pelas instituições, mas sim produzidos por estas. Instituições, organizações econômicas e políticas são racistas por que a sociedade é racista, e o racismo, quer queira, quer não, constitui e influência as nossas relações a o que Silvio Almeida chama de “padrão de normalidade”, uma espécie de contrato social.

No processo histórico e político civilizatório as estruturas sociais são reproduzidas através das instituições que por sua vez alimentam as práticas sociais que darão sentido e continuidade as estruturas. Na concepção individualista, tido como ultrapassada frente as demais, subestima-se o problema por tratá-lo como uma normalidade e atitude isolada de uma pessoa. Na concepção institucional a reflexão sobre o fenômeno do racismo se aprofunda e avança com relação a primeira, porém ainda se torna necessário tornar as coisas ainda mais claras, a estrutura e ordem social da qual interessa as instituições se manter intacta.

Em uma sociedade na qual o racismo se mostra presente na vida cotidiana, as instituições que não tratarem de forma a combater e trazer ao debate a desigualdade racial, acabam por reproduzir praticas racistas normalizadas, é o que vem geralmente acontecendo nas entidades do desporto. No caso de injuria racial que o atleta brasileiro Neymar sofreu será interpretada por parte das entidades esportivas na forma de silêncio e isolada, talvez incentivando uma campanha de fachada apenas parar mostrar preocupação, sem adoção de políticas internas que visem esse enfrentamento.

E não somente as entidades de administração do desporto se devem colocar em um papel de mudança, mas também as próprias entidades desportivas. Recentemente, o caso de racismo e assédio do Clube Pinheiros6, maior representante de medalhas olímpicas no país, exemplificou o que chamamos da esfera institucional do racismo, não apenas com casos isolados de indivíduos, mas sim de um próprio aval da instituição para a reprodução da normalidade racista, ao demitir o ginasta Ângelo Assumpção, jovem atleta negro da zona leste de São Paulo, pelas suas constantes reinvindicações contra ofensas e discursos racistas que sofria da comissão técnica e demais integrantes do clube7.

Da mesma forma, após denúncia de Neymar por ter sofrido racismo vindo do zagueiro Álvaro González, o presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), Noël Le Graët, afirmou que o racismo “não existe” no futebol8. A resposta dada a essas instituições sobre os casos de racismo reproduz privilégios e violências de cunho racial.

A única forma efetiva de combate, sobretudo no esporte e através do esporte, seria promover a diversidade em suas relações internas, remover obstáculos para a ascensão de minorias em posições de direção e de prestigio nas instituições, promover e incentivar espaços permanentes para revisão de práticas institucionais. Embora seja um pilar necessário, não se pode limitar apenas a representatividade, sendo também fundamental para a luta antirracista que pessoas negras e outras minorias estejam nos espaços de poder, assim como a liderança institucional dessas pessoas para a implementação de programas que possam incidir sobre os problemas estruturais que o esporte e o futebol acabam apenas por expor e reproduzir.

Pesam a favor do impulso de mudança no segmento esportivo a veiculação de um comportamento revolucionário que certamente influenciaria a nossa sociedade, mas existem alguns entraves históricos e contemporâneos que dificultam essa renovação no esporte.

A grande exploração econômica de gigantes no mercado mundial que patrocinam o esporte e o futebol, empresas essas que por muito tempo e ao longo da história se valorizaram da organização política e do princípio exploratório, de submissão e desigualdade como ordenador do capitalismo, indissociável ao movimento da economia. Hoje em dia, ele se manifesta a partir de regulamentos instituídos pelas entidades de organização de eventos esportivos, que sob influência dos patrocinadores impedem posicionamentos políticos e que acabam por reprimir personagens influentes do esporte, sob a justificativa de manter o esporte como um campo neutro e de imparcialidade com relação a influencias políticas, além da intenção em expor o futebol e demais modalidades esportivas como um produto apartidário e isento para captação de patrocínios e publicidade.

Pesa na mesma balança, outrossim, a mescla de sentimentos de nação e pertencimento que foi ao longo dos anos desenvolvida por clubes de futebol junto aos seus torcedores, que contribuem diretamente para a propagação do racismo. A ideologia nacionalista e a construção de um discurso étnico que possui como pilares uma estratégia de congregação racial, étnica e religiosa. Um exemplo no futebol a ser apontado é a identidade construída entre os torcedores da Lazio junto aos ideais neofascistas9, que possui suas raízes na identificação do clube junto ao ditador Bendito Mussolini à época do fascismo na Itália, na qual a entidade romana fora inclusive um instrumento de propaganda do regime. A incorporação desses ideais se manifesta a partir de protestos da torcida a contratação de atletas negros e de origem judia, as saudações e cantos fascistas durante os jogos e a pressão para a manutenção de práticas racistas no clube. Menciono também os protestos dos torcedores do Zenit na Russia em desacordo a contratação do brasileiro Malcom10, atleta negro, que recebeu represália por parte da torcida, que alega que a contratação de jogadores negros vai contra “a tradição do clube”.

Pontos favoráveis que podemos refletir em uma visão mais otimista no combate ao racismo na esfera esportiva é a própria adoção de políticas que promovam igualdades no setor privado que visam beneficiar minorias sociais e historicamente discriminadas. Empresas vêm trabalhando para promover a diversidade, inclusão e a igualdade de gênero, inclusive por meio da publicidade, o que no caso do mercado esportivo seria inerente a uma inevitável mudança a ser esperada. Menciono também um maior número de jornalistas e profissionais negros e mulheres que tem trabalhado na cobertura esportiva em comparação a tempos anteriores.

No futebol também, um movimento importante e pioneiro para a promoção de igualdades surgiu com o Esporte Clube Bahia que criou o Núcleo de Ações Afirmativas11, no qual realizam campanhas em seu estádio, e a partir da publicidade do clube trazendo pautas como o racismo, homofobia, assédio as mulheres e intolerância religiosa, inclusive promovendo levantamentos sobre a vivencia de torcedoras mulheres do clube nos estádios12, por meio de questionários apontando situações de assédio sexual, constrangimento e injúrias raciais, para incentivar a participação feminina no clube e nas arquibancadas, além de outras atividades realizadas pelo núcleo para promover a inclusão e ações sociais.

Nos Estados Unidos, a adesão as manifestações “Black lives Matter” tomou as ruas do país, impulsionadas pelo assassinato de George Floyd e a o caso “Jacob Blake”, na qual os jogadores do Milwalkee Bucks realizaram um boicote frente a partida de play-offs, com a participação dos demais atletas das equipes13.

Nesse sentido, uma corrente otimista com relação ao enfrentamento a estrutura racista tem sua base em movimentos de representatividade das minorias, sendo um passo importante na luta contra o racismo. Se faz essencial a abertura de um espaço político para promoção de reivindicações das minorias para que as mesmas possam ser repercutidas, assim como desvincular narrativas discriminatórias que mantem o padrão de normalidade onde o racismo atua em nossa sociedade. A luta ainda será longa e parte da conscientização das grandes instituições e entidades de prática desportiva aplicarem mudanças efetivas para o combate ao racismo, para além das notas de repúdio e do marketing antirracismo.

Notas e Referências:
1 – Observatório da discriminação racial no futebol, relatórios anuais de casos de discriminação racial no futebol. Disponível em [https://observatorioracialfutebol.com.br/]. Acesso:14.Set.2020

2 – Entrevista Marcio Chagas, ex-arbitro de futebol . Racismo. Disponível em  [https://www.youtube.com/watch?v=NQNIeyWSUVg&t=766s&ab_channel=CanalGNT ]. Acesso: 13. Set.2020.

3 – Expulso, Neymar protesta contra racismo. Disponível em: [https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-frances/noticia/neymar-reclama-de-racismo-durante-jogo-do-psg-pelo-frances.ghtml]. Acesso: 15.Set.2020

4 – Almeida, Silvio. Racismo Estrutural.  In: Djamila Ribeiro [et al] Feminismos Plurais. São Paulo. Polen. 2020

5 – Dados apresentados pelo Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol em 2017. Disponível em: [https://observatorioracialfutebol.com.br/Relatorios/2017/RELATORIO_DISCRIMINCACAO_RACIAL_2017.pdf]. Acesso 13.Set.2020.

6 – Caso de racismo e assédio no Pinheiros Disponível em: [https://www.uol.com.br/esporte/colunas/lei-em-campo/2020/08/25/justica-desportiva-vai-abrir-inquerito-para-apurar-racismo-no-pinheiros.htm]

7 – Angelo Assumpção. Ginástica e Racismo. Disponível em [https://www.youtube.com/watch?v=fewR9mbc42I&ab_channel=MeteoroBrasil]. Acesso 16.09.2020.

8 – Presidente da federação francesa afirma que o racismo ‘não existe’ no futebol. Disponível em: [https://observatorioracialfutebol.com.br/presidente-da-federacao-francesa-afirma-que-o-racismo-nao-existe-no-futebol/]. Acesso 16.09.2020.

9 – Por que Lazio, vice na Itália, é considerada o time mais fascista do mundo? Disponível em: [https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rafael-reis/2020/06/24/por-que-lazio-vice-na-italia-e-considerado-o-time-mais-fascista-do-mundo.htm]. Acesso: 15.Set.2020.

10 – Torcedores do Zenit foram contra a contratação do brasileiro e alegaram que contratar jogadores negros é contra a tradição da equipe. Disponível em: [https://www.lance.com.br/futebol-internacional/zenit-nega-racismo-torcida-imprensa-russa-alega-que-malcom-pode-ser-vendido.html.]  Acesso: 13.Set.2020.

11 – Bahia de todas as cores, classes, crenças e gêneros. Disponível em: [ https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/20/deportes/1542753637_302970.html.] Acesso: 13.Set.2020.

12 –  Levantamento junto à torcida feminina do Bahia sobre a sua vivência no estádio em jogos do clube. Disponível em: [https://www.esporteclubebahia.com.br/wp-content/uploads/2018/08/ebook-2.pdf]. Acesso: 14.Set.2020.

13 – Caso Jacob Blake: entenda o que motivou a paralisação dos jogadores da NBA. Disponível em: [https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2020/08/caso-jacob-blake-entenda-o-que-motivou-a-paralisacao-dos-jogadores-da-nba-ckebxzt7p0059013gtpfsy3xs.html] Acesso: 14.Set.2020.