O preparador físico e o treinamento de acordo com o modelo de jogo

Para essa coluna, resolvi abordar um tema em homenagem a todos os preparadores físicos, profissionais extremamente importantes nas comissões técnicas e que foram obrigados a encontrar uma nova maneira de atuação, face as mudanças que o futebol atual tem passado, até mesmo porque o sucesso de um time não passa apenas pelo trabalho dos atletas e do treinador.

Durante quase 20 anos, atuei como preparador físico. Portanto, eu fico muito a vontade para falar sobre esse assunto. A minha formação universitária foi em Educação Física e a minha especialização em Fisiologia do Exercício. Como o meu interesse sempre foi o futebol, eu foquei a minha busca de atuação nessa área.

A minha vontade em falar sobre esse assunto surgiu graças ao FUTCLASS, desde quando o Caio Caldeira me convidou para uma Live e me fez um questionamento que me estimulou a pensar enquanto treinador, mas que a expertise de preparador físico colaborasse na qualidade da resposta. Ele me fez a seguinte pergunta: como analisar melhor as variáveis físicas de acordo com a tática, matriz unificadora dos elementos do jogo? Por exemplo, aliar a velocidade com a capacidade do atleta de analisar a situação, ler corretamente e reagir ao estímulo e não somente cumprir uma meta puramente quantificável.

Como um apaixonado pelo futebol e por aquilo que eu faço desde 1992 (início da minha preparação), falar sobre esse tema me deixa muito orgulhoso de todo o caminho que eu percorri até chegar onde estou, porém com a responsabilidade do que será preciso fazer para continuar trilhando esse caminho. Eu tive o privilégio de ser auxiliar de excelentes profissionais, de conhecer muitos e de debater (até hoje em dia) com vários.

Em uma de nossas inúmeras conversas sobre futebol, Bruno Lazaroni pontuou que: “Nós devemos levar em consideração que algumas avaliações subjetivas podem ser princípios norteadores a serem observados, pois um determinado atleta pode não ser veloz mas tomar decisões rápidas e assertivas, ou até mesmo um atleta pode não ser forte mas estar bem posicionado em campo, entre outros”.

O futebol demanda um nível ótimo de condicionamento físico por parte dos atletas, uma vez que é um jogo de intensidade variada (baixa – média – alta) com movimentações constantes e com períodos de repouso cada vez menores entre os estímulos, onde aqueles que melhores respostas apresentarem poderão ser beneficiados.

Se pensarmos no desenvolvimento integral do atleta, verificamos a importância do treinamento (padrões e comportamentos), e é justamente nesse ponto que eu foquei essa coluna: na atuação do profissional dentro do processo de treinamento.

O preparador físico atual precisou acompanhar a evolução e entender a sua importância no processo de construção do modelo de jogo da equipe. Para isso, ele precisa saber como o modelo funciona e, dentro do seu trabalho, potencializar os comportamentos necessários para a execução ideal do mesmo. O trabalho não pode ter “pontas soltas”, então todos os profissionais precisam fazer parte dessa construção coletiva. Essa construção passa pelo processo do treinamento e no futebol atual não há mais como tentar driblar o profissionalismo. A filosofia de treinamento mudou drasticamente: hoje o trabalho está todo inserido no contexto do futebol, com a bola como protagonista.

O preparador físico atual não se restringe apenas a sua atuação. O método mudou e as exigências físicas são propostas, prioritariamente dentro do contexto do jogo. Então, é importante que sejam sempre elaboradas situações que desenvolvam as capacidades físicas (resistência anaeróbica lática e alática, agilidade, força e potência musculares), as capacidades motoras (tempo de resposta, tempo de bola, controle de força) e as capacidades cognitivas (memorização e aprendizagem motora, tomada de decisão).

Quando esse ponto de abordagem vem à tona, sempre entra a questão do treinamento analítico versus o sistêmico. Eu, particularmente, sempre priorizo junto com a comissão técnica o método sistêmico, mas isso não significa que não pensamos no método analítico, pois ele também se faz presente desde que a sua aplicação tenha objetivos pré-estabelecidos e, mesmo assim, de acordo com aquilo que pensamos sobre o jogo.

A ideia central é TREINAR PELO JOGO e PARA O JOGO. O diferencial na preparação é o treinamento. Se o treinador não é capaz de identificar as situações de jogo no treinamento, ele não será capaz de identificar as ações ocorridas durante o mesmo, pois as variáveis que ocorrem no futebol são muitas! Conforme já foi dito, o treino de hoje é muito diferente do que fazíamos antes e muitos ainda acreditam estar treinando algo que de fato não estão. A atenção deve ser para os comportamentos de jogo, como agir e reagir nas suas diferentes partes (organização e transição – ofensiva e defensiva, além das estratégias de bolas paradas). Alguns treinadores exigem ainda uma colaboração dos preparadores físicos nas divisões de tarefas nas atividades realizadas nos treinamentos, sejam elas individualmente ou em dinâmicas setoriais e intersetoriais.

É muito importante que na elaboração do treinamento a comissão técnica esteja
atenta as seguintes questões:

  • O que eu pretendo treinar?
  • Quando esse treinamento será realizado?
  • Como ele será elaborado e desenvolvido?
  • De que maneira eu pretendo aplicar e fazer as intervenções e correções?

Atualmente, todos os membros da comissão técnica estão respaldados por uma gama de dados e informações importantes no processo de tomada de decisão por parte do treinador, até mesmo porque a decisão final deverá ser sempre dele. A importância de ter um elenco vasto e qualificado é verificada nesses momentos, para que caso seja necessário retirar um atleta em momentos de necessidade não comprometa o time.

O ambiente do futebol é muito frenético, cruel e multifacetado. O trabalho precisa ser pensado e programado para ser desenvolvido a longo prazo, com uma comissão técnica que possua todas as qualidades de equipe (multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar). Fazendo uma analogia, os membros da equipe devem ser GUINDASTES para os treinadores (aqueles que o elevam) e não BENGALAS (aqueles que o treinador precisa se escorar para não cair).

Eu sempre digo que: “bons projetos só se estabelecem com vitórias”, há quem discorde, mas infelizmente é uma triste realidade no futebol em praticamente todos os lugares. Com resultados e atuações ruins, o treinador vai embora e o processo se reinicia. No futebol não existe esse nível de pensamento verdadeiro, eles se perdem muitas vezes pela estrutura organizacional dos clubes. Sejamos fortes!

“Nossas crenças se transformam em pensamentos, os pensamentos em palavras, as palavras se tornam ações e estas ações repetidas se tornam hábitos. E estes hábitos formam nossos valores e nossos valores determinam nosso destino”.

MAHATMA GAHMDI.