O “CALE-SE E ATAQUE” de Choi Kang Hee

Durante sete anos da minha carreira profissional (2011 – 2017), eu trabalhei na Coreia do Sul, na equipe do JEONBUK HYUNDAI MOTORS FC (JBFC), incialmente como preparador físico e posteriormente acumulando a função de auxiliar técnico do treinador coreano CHOI KANG HEE, uma verdadeira lenda do futebol coreano.  

Desde a chegada do treinador em 2005, o JBFC deu o primeiro passo para se tornar uma equipe vencedora. Já no primeiro ano de trabalho, sagrou-se campeão da Copa da Coreia do Sul (2005) e no ano seguinte da AFC Champions League da Ásia.

Iniciou-se desde então o processo de construção de metodologia de trabalho com tomadas de decisões assertivas na montagem de um elenco para que a equipe tivesse, de fato, a imagem daquilo que o treinador acreditava. Em 2009 e com total respaldo da Hyundai (dona da equipe), começou a implementação daquilo que toda a mídia esportiva coreana passou a chamar de CALE-SE E ATAQUE, uma referência a  equipe altamente propositiva que buscava o gol incessantemente, acreditando ser esse o melhor antídoto para aniquilar os seus adversários. 

E deu certo! Até o treinador se despedir do clube e se transferir para o futebol chinês (Shanghai Shenhua FC), foram seis títulos nacionais da K – League Classic (além de dois vice-campeonatos e uma 3ª colocação), uma final da Copa da Coreia do Sul (terminou em 2º lugar) e duas finais de AFC Champions League da Ásia (uma derrota e uma vitória). 

E qual era o segredo por trás do trabalho desenvolvido por Choi Kang Hee? Treinamento árduo e muito equilíbrio organizacional, acima de tudo. O treinador marcou uma era no futebol coreano e asiático com essa ideia de acreditar que não bastava apenas jogar bem, mas que tinha que emocionar. Além de emocionar, virar dados estatísticos. 

O JBFC, sob o comando do treinador, atuava utilizando a plataforma de jogo 1 – 4 – 4 – 2 (e suas variações), e a equipe nunca foi dependente exclusivamente do talento e da técnica dos seus atletas, apesar da busca pelos melhores para exercerem aquilo que ele acreditava. A equipe possuía talentos individuais locais e estrangeiros, mas sobretudo a organização para que esses talentos aparecessem era primordial.

A equipe atacava variando as formas, seja através de ataques apoiados e passes curtos, de ataques rápidos, de busca pela superioridade numérica (principalmente pelos corredores laterais), de contra-ataque e de construções longas direcionadas (diretas ou nos espaços) valendo-se da desorganização dos adversários e também das equipes que jogavam em blocos baixos defensivos. A ideia principal sempre foi ser mais rápido e envolvente, aumentando os espaços para atuar, porém nessa coluna eu vou falar apenas de uma maneira utilizada pela equipe e que muitas vezes foi criticada pela imprensa e pelos adversários, apesar dos resultados dizerem o contrário: as construções longas direcionadas (jogo direto). 

O preconceito contra algumas propostas de jogo vem, muitas vezes, de pessoas que não sabem o que está por trás delas. A construção direta pode ser muito útil nas mais diversas situações, desde que haja movimentações equilibradas para que  ela funcione da melhor maneira possível e não sobrecarregue nenhum setor da equipe. Ou seja, requer compreensão e muito treinamento para que os atletas identifiquem todas as possibilidades da funcionalidade da ideia, potencializando as ações individuais e coletivas.

De uma maneira geral, muitos acreditam que podem simplesmente copiar  os modelos vencedores e acreditar que eles serão sempre as melhores referências, mas não é assim que acontece, pois nem sempre (ou quase nunca) o treinador terá a disposição atletas com as características que determinada ideia de jogo necessita.

A equipe desenvolvia nos treinamentos situações para a melhor compreensão dos atletas para as dinâmicas intersetorias e intrasetoriais, no envolvimento coletivo e nas ocupações eficientes dos espaços próximos aos atacantes, além da manutenção da amplitude de jogo e das possibilidades de encontrar espaços. O treinamento dessas ações foi o grande diferencial no processo de potencialização dos comportamentos dos atletas.

Um fator importante é que a equipe sempre buscava estar acima da linha da bola e na lacuna entre a defesa e o meio do adversário, o tão falado espaço entrelinhas. Era uma ideia de posicionamento muito exigida, de sempre buscar estar no meio do caminho entre os zagueiro e o volantes adversários. 

Consequentemente, a equipe sempre tinha muitas opções de passe pelos lados e para a frente, onde os pontas ou os laterais eram os grandes criadores, pois enxergavam o jogo de frente e podiam conectar melhores passes.

A preocupação maior durante a construção do modelo de jogo passou a ser de minimizar os números de chances perdidas, pois a equipe criava muitas oportunidades durante os jogos. E criava muito devido às aproximações e projeções que aconteciam a partir da bola longa. A escolha pelos atacantes de grande imposição física, de pontas rápidos com grande ação de enfrentamentos, com meias que atuavam com maestria no espaço entrelinhas e com laterais construtores, e a busca pelo passe para a frente fazia com que a equipe criasse inúmeras oportunidades.

Qual era o segredo afinal? Além do tempo que ele teve para elaborar o processo, o segredo sempre foi entender que as pessoas que são o coração do futebol, e não a tática. Ideias todos os treinadores tem, sejam elas boas ou ruins. 

O entendimento do treinador Choi Kang Hee, nesse caso específico, foi em conseguir junto a um grupo de atletas comprometidos com a ideia de jogo que ele tinha, aliado a qualidade técnica que possuíam, desenvolver as conexões ideais para o enriquecimento coletivo. Os atletas conseguiram entender rapidamente os quatro processos que deveriam ser feitos: ASSIMILAR, AVALIAR, DECIDIR e AGIR. 

Como bem disse Jurgen Klopp na sua biografia (KLOPP de Raphael Honingstein): “no futebol leva-se muito tempo para que algo novo (diferente) seja implementado, e quando grandes coisas acontecem, as recompensas geralmente chegam mais tarde”.