FAZER DIFERENTE PARA FAZER A DIFERENÇA

O último final de semana de maio marca a rodada de abertura do Campeonato Brasileiro de 2021, ainda sem a presença dos torcedores no estádio e sua participação que, muitas vezes, é preponderante para algumas equipes se sobressaírem. Nos 38 jogos que terão pela frente, todos os 20 participantes são incapazes de prever seu desempenho, embora seja bem comum nesta fase as pessoas envolvidas com o futebol, principalmente torcedores e jornalistas, fazerem suas apostas. Todos os amantes do futebol estão entusiasmados e, independentemente do que se desenhar ao longo da competição, fato é que haverá muita emoção para administrar até o início de dezembro.

Costumo dizer aos meus amigos que acompanham o futebol como meros espectadores que temos visões completamente distintas quando assistimos ao mesmo jogo. É natural que quem vive do futebol analise de forma mais criteriosa e tire diferentes conclusões. Baseado nas minhas observações de elencos e planos de jogo implementados nos jogos dos campeonatos estaduais e até por ter enfrentado algumas equipes fortes no cenário nacional no primeiro semestre, tenho constatado o quanto saem na frente os times que propõem uma disposição estratégica dos atletas que foge do padrão tradicional do momento.

É cultural no Brasil a imitação do modelo que “vem dando certo”. A título de ilustração, recorro ao Cruzeiro de 2003, comandado por Vanderlei Luxemburgo. Aquele 4-4-2 com a formação de um losango clássico no meio-de-campo e dois homens mais centralizados no setor ofensivo, se tornou referência por um bom tempo. Até que outra equipe pusesse em prática uma nova forma de jogar e obtivesse resultados expressivos, quase invariavelmente víamos times utilizando a estrutura que o Cruzeiro usou para conquistar a Tríplice Coroa no Brasil, mesmo quando faltavam atletas com características que possibilitassem tal sistema. Outro exemplo ocorreu há menos tempo, quando o Tite era o treinador do Corinthians campeão nacional em 2015 e 2017, no qual podíamos até ver nomes diferentes na escalação, mas o padrão do 4-1-4-1 permanecia.

Hoje, a grande maioria dos times continua apostando no 4-4-2, mas utiliza-o através da montagem de duas linhas de 4 jogadores fortalecendo a estrutura para os outros dois, que, posicionados mais à frente, alternam entre ficar lado a lado ou um mais próximo da segunda linha e outro mais próximo do gol adversário. Como a evolução técnico-científica também contempla o futebol e a tecnologia facilita o acesso a uma infinidade de dados individuais e coletivos sobre qualquer adversário, alguns ajustes se fazem necessários em determinadas situações que podem ocorrer nos jogos.

Entretanto, diante deste cenário, há uma linha tênue entre essas adaptações visando neutralizar um ponto forte do adversário e o apelo ao espelhamento da proposta de jogo do oponente. A primeira é indispensável, principalmente quando se enfrentam jogadores capazes de decidir o jogo a qualquer momento ou que vivem fases espetaculares; a segunda, por sua vez, nos remete mais à limitação dos técnicos motivada por medo de perder o jogo e, consequentemente, o emprego, ou à falta de conhecimento de ideias alternativas, tanto na fase defensiva objetivando não ceder espaço à outra equipe, quanto na ofensiva, sem abrir mão das peculiaridades do próprio modelo de atuar.

Além disso, vale destacar a dificuldade que muitos treinadores têm de mensurar o potencial que tem em mãos, que passa pela identificação do que cada atleta pode render e como fazer para explorar ao máximo suas competências e habilidades. Ao recorrer ao sistema de jogo da moda ou ao espelhamento do adversário, é notório o comprometimento à qualidade dos jogos em geral. E, infelizmente, isto é mais comum do que se imagina. O torcedor, inclusive, tem reclamado constantemente sobre a baixa atratividade do evento, justamente porque acredita estar sempre vendo mais do mesmo: muita força física, muita disciplina tática, e pouco talento (drible, capacidade de improvisação etc).

Voltando à linha de raciocínio iniciada no segundo parágrafo, gostaria de citar dois exemplos, de times curiosamente (ou não) treinados por técnicos estrangeiros: o Palmeiras, de Abel Ferreira; e o São Paulo, de Hernán Crespo.

Por crer que sua maior força está nos dois homens de frente, Abel montou um 3-5-2 visando o máximo possível de liberdade a Roni e Luiz Adriano. A velocidade do primeiro somada à inteligência, qualidade técnica e capacidade de flutuação e retenção da posse da bola do segundo, facilita a tomada de decisão de Raphael Veiga, que também se destaca nos lançamentos, nas bolas paradas e nos chutes de média distância. Para isso, bastou montar a linha de 3, que, na fase defensiva em linha baixa, se transforma em linha de 5, e fortalecer a marcação dos meio-campistas. A percepção do treinador português foi crucial para o Palmeiras se reinventar e se consolidar com uma estrutura de jogo singular e bastante eficiente.

No caso de Hernán Crespo, com pouco tempo de trabalho no comando do tricolor paulista, os desafios eram: criar condições para que Daniel Alves e Reinaldo se tornassem fortes armas ofensivas e não se desgastassem tanto na recomposição; dar liberdade de movimentação aos volantes e meias, jogadores jovens e dinâmicos; povoar o meio-campo para que os atacantes não ficassem isolados, uma vez que Luciano, Pablo e Éder não são velocistas e preferem jogar por dentro, utilizando as combinações e tabelas com quem vem de trás. Para isso, foi necessário organizar o time com 3 zagueiros rápidos e de combate forte, além de adiantar a marcação e diminuir a chance de ser envolvido pelo oponente.

O propósito deste texto, mais do que a presunção de afirmar que Palmeiras ou São Paulo são candidatos ao título simplesmente por jogarem de modo incomum no país, é valorizar a audácia para fazer diferente, não apelando ao tradicional, nem se contentando com qualquer resultado sob a desculpa de que o campeonato é difícil ou de que “hoje não era o nosso dia”. Para quem quer se destacar, não dá para se acomodar; quem não aceita ser mais do mesmo, precisa reconhecer que, sem capacitação e coragem, o caminho para estagnação e retrocesso está muito mais pavimentado do que para progresso e sucesso.