Aula de clichês

Por que sempre vemos crise ao fim dos estaduais?

A bola entra por acaso. A máxima trazida no título do livro é uma meia verdade. E uma meia verdade é uma mentira inteira.

Claro que o futebol, esporte apaixonante e imprevisível, traz situações inesperadas. Pode beneficiar, no curto prazo, a irresponsabilidade; por vezes premia times apenas razoáveis que, num bom dia, conseguem derrotar outro claramente superior nos 90 minutos…

O sucesso pontual é natural no futebol. A bola entra por acaso, portanto. O sucesso duradouro e sólido é o grande desafio. Como gestor, é muito mais gratificante ter um título como fruto de um processo de crescimento estruturado do que como um fortuito proporcionado pelos deuses da bola.

“Um título é um título”, bradarão alguns apaixonados mais exaltados. É verdade. Dificilmente se troca uma taça na prateleira por uma estruturação sólida. Pergunto-me se os torcedores do Cruzeiro trocariam suas duas recentes taças da Copa do Brasil pelo clube ter uma solidez administrativo/financeira e estar na série A. Honestamente, não faço ideia da resposta a esse devaneio.

Posso falar da experiência que vivi, não apenas como apaixonado pelo futebol, mas como gestor. Perdi algumas finais, ganhei outras… Cada uma teve sua história e deixou seu aprendizado. Não apenas as que perdemos, mas, especialmente, as que ganhamos.

Em tempos de clichês encontrados aos montes pela internet, tem um que fala sobre “perder ou ganhar” que, apesar de interessante, me parece induzir em erro: Eu nunca perco. Ou eu ganho ou APRENDO. Essa bela frase de autoajuda induz num erro crasso! No de que a vitória não traz aprendizados! Ou ainda pior: no de que não haveria erros no caminho do triunfo.

A construção do sucesso sólido necessita de uma constante autocrítica. Isso, infelizmente, é elemento em falta na gestão esportiva. Especialmente devido a algo que sobra no meio: vaidade. A vaidade impede o reconhecimento de erros, especialmente os acobertados pelo sucesso momentâneo, seja em campo ou fora dele. E, se a reflexão e o amadurecimento não vêm, erros serão novamente cometidos, mas, eventualmente, não terão a sombra do sucesso para escondê-los.

A tomada de decisões é a parte mais crucial da gestão de futebol. Do dirigente ao treinador. Não sobre as coisas simples do dia a dia, mas as relativas a temas relevantes! Contratações, demissões, escalações, políticas estratégicas… O líder tem, ao longo de um ano, uma quantidade relevante de decisões que podem impactar na temporada e no futuro do clube.

O grande risco na tomada de decisões não é errar. Isso é inerente ao processo. O principal problema é não aprender com a experiência acumulada. Seja sua, seja dos outros.

O maior aprendizado que tive sobre as decisões é que não se deve avaliá-las pelo resultado que geram. O que deveria ser levado em consideração é a sua motivação, seu fundamento. A partir do momento que os dados são rolados, a sorte está lançada e a avalição deve ser feita antes de saber o resultado final. Isso porque, as melhores decisões podem trazer os piores resultados da mesma forma que péssimas decisões podem acarretar sucesso.

O treinador acertou na substituição? Você deve responder a pergunta no momento em que o ato é praticado, não depois que o atleta entra em campo e performa. Aí ficaria fácil. Seria a “sabedoria do depois”. Engenharia de obra pronta.

O mesmo se aplica ao dirigente. Montou bom elenco? Escolheu bem o treinador? Manteve para temporada seguinte corretamente? Quais dados fundamentaram suas decisões?

Não é o resultado dos estaduais que traz a crise no futebol brasileiro. É a falta de análise da tomada de decisões. O mesmo “resultadismo” que exige cabeças no fim de abril (esse ano em agosto por conta da pandemia) é que faz com que dirigentes e treinadores cometam erros previsíveis e totalmente evitáveis.