A violência contra a mulher e o futebol

O campo que não gera conscientização

A sociedade brasileira tem passado por sensíveis mudanças ao longo dos anos, particularmente do início do século XXI até hoje. Inúmeras atitudes afirmativas por parte Legislativa ocorreram, tais como a criação da lei Maria da Penha que foi sancionada em 2006 visando coibir a violência doméstica contra a mulher, a lei do feminicídio que entrou em vigor em 2015, entre tantas outras atitudes que tinham o claro intuito de proteger a mulher na sociedade.

No futebol temos visto a pouco tempo diversas campanhas de conscientização dos torcedores através de postagens em redes sociais de diversos clubes sobre a violência contra a mulher. O Corinthians (que já tem uma luta histórica no cenário nacional desde a década de 70), no carnaval fez postagens para dizer que “NÃO É NÃO” para que não houvesse assédio nas ruas do Brasil. O Santos também tem feito um trabalho notável nas redes sociais acerca de diversos temas e não foi diferente em repudiar os crimes contra a mulher.

Sendo válido citar que a CBF tem incentivado o futebol feminino em nosso país, criando o Campeonato Brasileiro e fomentado os campeonatos estaduais por todo nosso território. Além disso, equiparou os valores das diárias que as seleções femininas e masculinas recebem para representar a seleção em competições, sejam elas continentais ou mundiais.

Essa introdução foi necessária para falar sobre a mais recente contratação do Robinho pelo Santos. Nessa coluna não vamos discutir aspectos jurídicos, até mesmo para que isso pudesse ocorrer seria necessário compulsar os autos do processo. Entretanto, vamos discorrer como o meio do futebol não repudia tais atos de violência e por vezes até reforça tais comportamentos dos atletas.

Para demonstrar o que foi dito, vou trazer alguns dados sobre atletas que praticaram violência contra a mulher em algum momento da carreira, e como já exposto acima, o intuito não é discutir processualmente ou criminalmente as situações, haja vista que, seria necessária uma análise dos autos que este colunista não detém, logo, não se pode ser antiético para julgar os atletas.

O fato mais emblemático do país acerca de jogadores de futebol e violência contra a mulher é o famoso “CASO GOLEIRO BRUNO”, que em 2010 foi preso sob acusação de participar da morte de sua namorada à época Elisa Samúdio. Em 2013, o goleiro foi julgado e condenado como mandante do crime contra Elisa e permanece cumprindo pena. O que impressiona é que mesmo cometendo um crime de repercussão nacional e internacional, o atleta ainda encontra portas abertas em diversos clubes, tanto é verdade, que hoje se encontra empregado e mantém contrato com o Rio Branco do Acre.

Outro caso bem importante é do atacante Robinho que enquanto jogador do AC Milan da Itália e se envolveu em um crime de abuso sexual dentro de uma boate contra uma jovem Albanesa. O processo ainda está em tramitação na corte Italiana de Justiça, o atleta foi condenado em primeira instância podendo ainda recorrer dessa sentença. Entretanto, vimos mais uma vez que o atleta encontrou times para atuar durante esse período, sendo contratado por Sivasspor e pelo Basaksehir. Após rescisão contratual, a equipe do Santos ofereceu contrato até o fim de 2020. Assim, novamente vimos que nenhuma reprimenda foi aplicada ao atleta que até o presente momento, segue sendo processado. Nesse diapasão, o Santos já perdeu seu primeiro patrocinador diante de toda a repercussão negativa dessa contratação, no dia 14/10/2020 a ex-patrocinadora do Alvinegro Praiano soltou uma nota informando da rescisão e intitulou o documento como “PELAS MULHERES”. A mídia tem ido nesse caminho de crítica ferrenha à contratação, diversos programas esportivos e repórteres, tem se posicionado contrários mediante à gravidade da acusação.

Ainda temos o caso do atleta Jobson, acusado de estupro de vulnerável em 2016. O jogador supostamente aliciou 3 menores para seu sítio oferecendo bebidas e drogas. Teria abusado sexualmente das garotas e disponibilizado fotos das mesmas em grupos de rede sociais. O Atleta ainda responde ao processo, enquanto, foi contratado pelo Brasiliense e teve uma passagem pela Portuguesa da Ilha do Governador no Campeonato Carioca. Em Agosto de 2020 o atacante foi contratado pelo Campinense da Paraíba para a disputa do campeonato da Série D. Mais uma vez, os clubes seguem apostando e abrindo portas pros atletas apesar do que possam ter feito, sem se importar com sua imagem.

Nessa semana mesmo mais um caso de agressão chegou ao noticiário esportivo, um atacante de 24 anos do RB Bragantino agrediu a ex-namorada por causa de ciúmes e foi condenado ao regime aberto por violência doméstica.

Ainda podemos citar diversos casos de violência contra a mulher, tais como o atacante Dudu que jogava no Palmeiras e agrediu sua esposa, logo após se transferindo para o exterior. O goleiro Jean que atuava pelo São Paulo e também agrediu sua esposa, apesar da rescisão contratual com o tricolor paulista encontrou o Atlético Goianiense para lhe dar contrato.

Todos os exemplos demonstram claramente que os clubes de futebol apesar das campanhas de conscientização, do trabalho de marketing e de gestão de imagem, ainda não se importam com o passado dos atletas e nem se eles respondem por crimes, desde que possam trazer resultados em campo.

De certo, temos que os clubes de futebol ainda contratam os jogadores e não levam em consideração qualquer crítica social, logo, não adiantarão mensagens de conscientização do público, enquanto o exemplo não vier de quem tem a possibilidade de modificar essa dura e cruel realidade.

Isso nos leva a uma reflexão mais profunda. Teríamos o mesmo tratamento com um atleta que se declara homossexual? Crimes cometidos contra mulheres não têm o condão de fazer com que os clubes ponderem sobre as contratações de atletas? Crimes diversos que possam ser cometidos por atletas também não seriam suficientes para afastar a contratação? Nos resta, tão somente o questionamento.